Sílabas leves e pesadas
Eis algumas regras básicas:
(a) Uma sílaba é pesada se sua vogal é pronunciada longa, ex. pōnō, īrātō.
(b) Uma sílaba é pesada se a vogal é seguida de duas consoantes ou consoante dupla (x, z), ex. ingentēs (in é pesada (n+g); gen é pesada (n+t)).
_ Divisão de palavra não altera a regra, ex. et é leve, mas et fugit faz um et pesado porque o t é seguido por um f, formando sequência de duas consoantes.
(c) Uma sílaba é pesada se contém ditongo, ex. aedēs.
(d) Uma sílaba é leve se contém uma vogal breve seguida por apenas uma (ou nenhuma) consoante, ex. et omnibus.
(...)
Notas
1 O peso ou a leveza de uma vogal não tem efeito em sua pronúncia natural. Assim, o et de et fugit pode contar como pesado para fim de escansão, mas não será pronunciado ēt por consequência. Para ajudar o leitor a perceber a diferença entre quantidade de vogal e peso da sílaba, continuaremos a marcar vogais longas separadamente à cadência da métrica (...).
quinta-feira, 8 de julho de 2010
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Reading Latin: Gramática, vocabulário e exercícios | Pronúncia
O método Reading Latin se constitui em dois livros, o livro Texto, até agora transcrito, e o livro Gramática, vocabulário e exercícios, que será introduzido a partir de agora.
PRONÚNCIA
a _ água
ā _ àquele
ae _ ai!
au _ audacioso
b _ bola
c _ cada, queda, quis (ou seja, sempre com som de "k")
ch _ "k" mais forte (som inexistente em português)
d _ dado
e _ ele, vela
ē _ ferreiro, chaleira (como dito "ferrêro", "chalêra")
ei _ como escrito: "êi", como em arreio
eu _ eu ("êu")
f _ filho
g _ gato, guerra, guitarra (ou seja, sempre gutural plosivo, e nunca como "j")
h _ aspirado
i _ itinerário
ī _ ali
i _ "i consoante", algumas vezes grafado j; diante de vogal, pronuncia-se como um i breve comum, como em ioiô
k _ casa
l _ louro
m _ mato, campo; atenção à pronúncia em fim de palavra, pois deve ser bem pronunciado, diferentemente de como é dito em português
n _ nó
o _ bodas, nota
ō _ louco (como é dito "lôco")
oe _ boia
p _ ponto
ph _ filosofia
qu _ quase, eloquente, equino, quorum, "kwu" (ou seja, sempre pronuncia o "u")
r _ como o "r" italiano, na ponta da língua
s _ isso, esse (sempre com pronúncia sibilante, nunca "z" como em português "casa")
t _ todo (mesmo diante de "i", nunca como em português "tio")
th _ "t" mais forte (som inexistente em português); nunca como o "th" inglês
u _ uva
ū _ caju
u _ "u consoante", às vezes grafado v; diante de vogal, pronuncia-se como um u breve comum, como em uai, uau
x _ "ks" (nunca "ch" como em português "xenófobo", nem "z" como em "exemplo")
y _ como o "u" francês ou o "ü" alemão (som inexistente em português)
z _ zebra
Regras para a acentuação da palavra (sílaba tônica)
1 Uma palavra de duas sílabas é acentuada na primeira sílaba, ex. ámō, ámās.
2 Uma palavra com mais de duas sílabas é acentuada na penúltima sílaba (ou seja, a segunda sílaba do fim para o início da palavra) se aquela sílaba é PESADA, ex. astūtus, audiúntur (vd. p. 318 para termos 'pesado', 'leve').
3 Em todos os outros casos, palavras com mais de duas sílabas são acentuadas na antepenúltima sílaba (ou seja, a terceira sílaba do fim para o início), ex. amábitis, pulchêrrimus.
4 Palavras com uma sílaba (monossílabos) são sempre tônicas, ex. nôx. Mas preposições antecedentes a um substantivo ou adjetivo não são tônicas, ex. ad hôminem.
5 Algumas palavras, ex. -que, -ne e -ue, que são sufixadas ao vocábulo que lhes precedem, podem produzir um deslocamento da acentuação para a última sílaba daquela palavra, ex. uírum, mas uirúmque.
Para uma revisão clara da pronúncia latina clássica, vd. W. S. Allen, Vox Latina (2a. edição), Cambridge, 1975.
PRONÚNCIA
a _ água
ā _ àquele
ae _ ai!
au _ audacioso
b _ bola
c _ cada, queda, quis (ou seja, sempre com som de "k")
ch _ "k" mais forte (som inexistente em português)
d _ dado
e _ ele, vela
ē _ ferreiro, chaleira (como dito "ferrêro", "chalêra")
ei _ como escrito: "êi", como em arreio
eu _ eu ("êu")
f _ filho
g _ gato, guerra, guitarra (ou seja, sempre gutural plosivo, e nunca como "j")
h _ aspirado
i _ itinerário
ī _ ali
i _ "i consoante", algumas vezes grafado j; diante de vogal, pronuncia-se como um i breve comum, como em ioiô
k _ casa
l _ louro
m _ mato, campo; atenção à pronúncia em fim de palavra, pois deve ser bem pronunciado, diferentemente de como é dito em português
n _ nó
o _ bodas, nota
ō _ louco (como é dito "lôco")
oe _ boia
p _ ponto
ph _ filosofia
qu _ quase, eloquente, equino, quorum, "kwu" (ou seja, sempre pronuncia o "u")
r _ como o "r" italiano, na ponta da língua
s _ isso, esse (sempre com pronúncia sibilante, nunca "z" como em português "casa")
t _ todo (mesmo diante de "i", nunca como em português "tio")
th _ "t" mais forte (som inexistente em português); nunca como o "th" inglês
u _ uva
ū _ caju
u _ "u consoante", às vezes grafado v; diante de vogal, pronuncia-se como um u breve comum, como em uai, uau
x _ "ks" (nunca "ch" como em português "xenófobo", nem "z" como em "exemplo")
y _ como o "u" francês ou o "ü" alemão (som inexistente em português)
z _ zebra
Regras para a acentuação da palavra (sílaba tônica)
1 Uma palavra de duas sílabas é acentuada na primeira sílaba, ex. ámō, ámās.
2 Uma palavra com mais de duas sílabas é acentuada na penúltima sílaba (ou seja, a segunda sílaba do fim para o início da palavra) se aquela sílaba é PESADA, ex. astūtus, audiúntur (vd. p. 318 para termos 'pesado', 'leve').
3 Em todos os outros casos, palavras com mais de duas sílabas são acentuadas na antepenúltima sílaba (ou seja, a terceira sílaba do fim para o início), ex. amábitis, pulchêrrimus.
4 Palavras com uma sílaba (monossílabos) são sempre tônicas, ex. nôx. Mas preposições antecedentes a um substantivo ou adjetivo não são tônicas, ex. ad hôminem.
5 Algumas palavras, ex. -que, -ne e -ue, que são sufixadas ao vocábulo que lhes precedem, podem produzir um deslocamento da acentuação para a última sílaba daquela palavra, ex. uírum, mas uirúmque.
Para uma revisão clara da pronúncia latina clássica, vd. W. S. Allen, Vox Latina (2a. edição), Cambridge, 1975.
Seção 1 Introdução
Seção 1
Aululāria de Plauto
Introdução: familia Eucliōnis
quis es tū? [máscara do velho] ego sum Eucliō. senex sum.
quis es tū? [máscara da jovem] ego sum Phaedra. fīlia Eucliōnis sum.
quis es tū? [máscara da velha] Staphyla sum, serua Eucliōnis.
quī estis? [as três máscaras] familia Eucliōnis sumus.
drāmatis persōnae
Eucliō: Eucliō senex est, pater Phaedrae.
Phaedra: Phaedra fīlia Eucliōnis est.
Staphyla: serua Eucliōnis est.
Eucliō senex est. Eucliō senex auārus est. Eucliō in aedibus habitat cum fīliā. fīlia Eucliōnis Phaedra est. est et serua in aedibus. seruae nōmen est Staphyla.
Eucliōnis familia in aedibus habitat. sunt in familiā Eucliōnis paterfamiliās, et Phaedra fīlia Eucliōnis, et Staphyla serua. omnēs in aedibus habitant.
Aululāria de Plauto
Introdução: familia Eucliōnis
quis es tū? [máscara do velho] ego sum Eucliō. senex sum.
quis es tū? [máscara da jovem] ego sum Phaedra. fīlia Eucliōnis sum.
quis es tū? [máscara da velha] Staphyla sum, serua Eucliōnis.
quī estis? [as três máscaras] familia Eucliōnis sumus.
drāmatis persōnae
Eucliō: Eucliō senex est, pater Phaedrae.
Phaedra: Phaedra fīlia Eucliōnis est.
Staphyla: serua Eucliōnis est.
Eucliō senex est. Eucliō senex auārus est. Eucliō in aedibus habitat cum fīliā. fīlia Eucliōnis Phaedra est. est et serua in aedibus. seruae nōmen est Staphyla.
Eucliōnis familia in aedibus habitat. sunt in familiā Eucliōnis paterfamiliās, et Phaedra fīlia Eucliōnis, et Staphyla serua. omnēs in aedibus habitant.
[*] Nota do tradutor
Da tradução
Este é um projeto de tradução para uso futuro de material por falantes de língua portuguesa.
É um projeto em seus primórdios, sendo realizado praticamente sem recursos; de maneira que as ilustrações serão, infelizmente, para já, suprimidas.
As referências de páginas serão mantidas seguindo a edição de base para estas traduções, reimpressão de 1997 (da primeira, e única, edição, 1986), Cambridge University Press, ISBN 0 521 28623 9 paperback.
Este é um projeto de tradução para uso futuro de material por falantes de língua portuguesa.
É um projeto em seus primórdios, sendo realizado praticamente sem recursos; de maneira que as ilustrações serão, infelizmente, para já, suprimidas.
As referências de páginas serão mantidas seguindo a edição de base para estas traduções, reimpressão de 1997 (da primeira, e única, edição, 1986), Cambridge University Press, ISBN 0 521 28623 9 paperback.
PARTE UM Seções 1-3
PARTE UM
Seções 1-3: Plauto e a tradição da comédia romana
Plauto
Titus Macc(i)us Plautus provavelmente viveu de 250 a 180. É dito que escreveu cerca de 130 comédias, das quais apenas 19 nos restaram. Como quase todos os escritores romanos, tomou ele inspiração aos modelos gregos anteriores, que ele traduzia livremente, adaptando-os para adequarem-se à audiência romana para quem ele escrevia. Por exemplo, é bastante certo que tenha ele baseado a Aululāria, a primeira peça que vamos ler, em uma peça do ateniense Menandro (340-290), e a Bacchidēs na Dis exapatōn ("Aquele que enganou duas vezes"), também de Menandro. Plauto escreveu comédias para serem exibidas em festivais romanos (fēriae, lūdī), ocasiões dedicadas à adoração dos deuses e abstenção de trabalhos. Os originais são escritos em verso.
Os atores nos originais gregos usavam máscaras que cobriam toda a cabeça. Ainda que não seja absolutamente certo que Plauto tenha seguido essa convenção, ilustramos as personagens plautinas na Introdução com máscaras-tipo gregas, do período de Menandro. Notas sobre essas máscaras e sobre outras ilustrações podem ser encontradas na p. 154. [*]
Aululāria de Plauto: uma nota
A peça Aululāria inicia com o discurso do Lar da família (deus doméstico), que explica a história da família em linhas breves, e nos alerta à avareza de Euclião. Para fim de adaptação, substituímos a breve história da família com algumas cenas formuladas a partir dos modelos da comédia romana comum. A sequência do texto de Plauto começa a partir da Seção 1C.
Seções 1-3: Plauto e a tradição da comédia romana
Plauto
Titus Macc(i)us Plautus provavelmente viveu de 250 a 180. É dito que escreveu cerca de 130 comédias, das quais apenas 19 nos restaram. Como quase todos os escritores romanos, tomou ele inspiração aos modelos gregos anteriores, que ele traduzia livremente, adaptando-os para adequarem-se à audiência romana para quem ele escrevia. Por exemplo, é bastante certo que tenha ele baseado a Aululāria, a primeira peça que vamos ler, em uma peça do ateniense Menandro (340-290), e a Bacchidēs na Dis exapatōn ("Aquele que enganou duas vezes"), também de Menandro. Plauto escreveu comédias para serem exibidas em festivais romanos (fēriae, lūdī), ocasiões dedicadas à adoração dos deuses e abstenção de trabalhos. Os originais são escritos em verso.
Os atores nos originais gregos usavam máscaras que cobriam toda a cabeça. Ainda que não seja absolutamente certo que Plauto tenha seguido essa convenção, ilustramos as personagens plautinas na Introdução com máscaras-tipo gregas, do período de Menandro. Notas sobre essas máscaras e sobre outras ilustrações podem ser encontradas na p. 154. [*]
Aululāria de Plauto: uma nota
A peça Aululāria inicia com o discurso do Lar da família (deus doméstico), que explica a história da família em linhas breves, e nos alerta à avareza de Euclião. Para fim de adaptação, substituímos a breve história da família com algumas cenas formuladas a partir dos modelos da comédia romana comum. A sequência do texto de Plauto começa a partir da Seção 1C.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Reading Latin, Introdução
Introdução
Gregos e romanos
De acordo com a tradição, Roma foi fundada por Rômulo em 21 de abril de 753. Ele foi o primeiro de sete reis. Em 509, o último rei (Tarquinius Superbus – “Tarquínio o Soberbo”) foi deposto, e iniciou-se a República. Isto foi reconhecido como o início do período da liberdade (lībertās). Durante essa época de governo aristocrático, Roma ampliou seu poder, primeiro para a Itália, depois para o Mediterrâneo ocidental (Sicília, Espanha, norte de África (Cartago)) e, por fim, para o Mediterrâneo oriental. Desde o início, Roma estava em contato com a cultura grega, pois colônias gregas haviam sido estabelecidas por volta do sétimo século na Itália e na Sicília. Ao norte de Roma, jaz uma outra cultura desenvolvida, a dos etruscos. Roma afinal conquistou a Grécia, em 146, encontrando-se portanto em posse do lar da mais prestigiada cultura do Mediterrâneo. A reação romana foi bastante complexa, mas três tendências principais podem ser notadas. Estavam orgulhosos de seus feitos militares e administrativos e, portanto, sentindo-se superiores aos gregos contemporâneos, aos quais haviam derrotado. Ao mesmo tempo, eles partilhavam da reverência pelos gregos contemporâneos em razão dos grandes feitos culturais dos gregos anteriores – Homero, Heródoto, Tucídides, os poetas trágicos e cômicos e os oradores. O resultado dessa atitude ambivalente era uma decisão razoavelmente consciente de criarem para si mesmos uma cultura digna de sua posição, como novo poder dominante. Essa cultura era modelada e imitada a partir daquela da Grécia em seu apogeu. Contudo, o orgulho dos romanos em si mesmos garantia que a cultura fosse latina e que sua literatura fosse escrita em latim, não em grego. As famosas palavras de Horácio ilustram a dívida de Roma à cultura grega:
Graecia capta ferum uictōrem cēpit, et artīs
intulit agrestī Latiō
“A Grécia capturada capturou seu selvagem conquistador, e arte
trouxe ao íntimo do agreste Lácio.”
Por outro lado, o poeta Propércio, contemporâneo de Virgílio, descreve a Eneida de Virgílio nos seguintes termos:
nescioquid maius nāscitur Īliade
“Eis que está surgindo algo, digamos, maior que a Ilíada ...”
Os romanos agora percebiam que sua cultura poderia pôr-se em comparação com a melhor outrora produzida pelos gregos. A veneração pelos gregos contrasta de grande modo, por exemplo, nos constantes ataques do poeta satírico romano Juvenal ao Graeculus ēsuriēns (“gregozinho faminto”), que refletia o desprezo aristocrático aos gregos modernos como a descendentes decadentes de um povo outrora glorioso. Entretanto, em todos os períodos, personalidades gregas eram tidas em grande estima em Roma (por exemplo, Políbio, Posidônio, Partênio, Filodemo). E, ao fim do primeiro século, Roma havia se tornado o núcleo cultural do mundo aos olhos não apenas dos romanos mas também dos gregos, cujos poetas, professores e filósofos agora para lá migravam. É parte da grandeza de Roma que, quando confrontada com a cultura grega, ela nem se subjugou de todo nem a atropelou esmagadoramente, mas aceitou o desafio, empreendeu-o tomando-a, transformando-a e transmitindo-a para a Europa. Sem a mediação de Roma, a cultura nos recantos mais remotos do antigo Império seria algo muito diferente do que foi e, compreensivelmente, muito menos rica.
Aqui, Cícero, um dos escritores mais influentes de Roma, lembra a seu irmão, Quinto (que foi governador na Ásia Menor, uma província romana amplamente povoada por gregos), simplesmente de quem ele tem sobre si responsabilidade, e a dívida que Roma tem para com essa gente:
“Nós estamos governando uma raça civilizada, de fato, a raça da qual se acredita que a civilização foi passada para outros e, seguramente, nós devemos dar os benefícios da civilização acima de tudo àqueles de quem nós a recebemos. Sim, não me envergonho de dizer isso, especialmente à medida em que a minha vida e história não deixam abertura para qualquer suspeita de indolência ou frivolidade: tudo o que eu obtive, eu o devo às descobertas e disciplinas que nos foram passadas pela mão da literatura e dos ensinos da Grécia. Assim sendo, nós podemos muito bem ser considerados como quem tem um dever especial para com esse povo, além e acima da nossa obrigação comum para com a humanidade; escolados por seus preceitos, nós devemos desejar demonstrar o que nós aprendemos, diante dos olhos daqueles que nos ensinaram.”
(Cícero, Ad Quīntum 1.1, traduzido da versão em inglês oferecida na introdução do Reading Latin)
Gregos e romanos
De acordo com a tradição, Roma foi fundada por Rômulo em 21 de abril de 753. Ele foi o primeiro de sete reis. Em 509, o último rei (Tarquinius Superbus – “Tarquínio o Soberbo”) foi deposto, e iniciou-se a República. Isto foi reconhecido como o início do período da liberdade (lībertās). Durante essa época de governo aristocrático, Roma ampliou seu poder, primeiro para a Itália, depois para o Mediterrâneo ocidental (Sicília, Espanha, norte de África (Cartago)) e, por fim, para o Mediterrâneo oriental. Desde o início, Roma estava em contato com a cultura grega, pois colônias gregas haviam sido estabelecidas por volta do sétimo século na Itália e na Sicília. Ao norte de Roma, jaz uma outra cultura desenvolvida, a dos etruscos. Roma afinal conquistou a Grécia, em 146, encontrando-se portanto em posse do lar da mais prestigiada cultura do Mediterrâneo. A reação romana foi bastante complexa, mas três tendências principais podem ser notadas. Estavam orgulhosos de seus feitos militares e administrativos e, portanto, sentindo-se superiores aos gregos contemporâneos, aos quais haviam derrotado. Ao mesmo tempo, eles partilhavam da reverência pelos gregos contemporâneos em razão dos grandes feitos culturais dos gregos anteriores – Homero, Heródoto, Tucídides, os poetas trágicos e cômicos e os oradores. O resultado dessa atitude ambivalente era uma decisão razoavelmente consciente de criarem para si mesmos uma cultura digna de sua posição, como novo poder dominante. Essa cultura era modelada e imitada a partir daquela da Grécia em seu apogeu. Contudo, o orgulho dos romanos em si mesmos garantia que a cultura fosse latina e que sua literatura fosse escrita em latim, não em grego. As famosas palavras de Horácio ilustram a dívida de Roma à cultura grega:
Graecia capta ferum uictōrem cēpit, et artīs
intulit agrestī Latiō
“A Grécia capturada capturou seu selvagem conquistador, e arte
trouxe ao íntimo do agreste Lácio.”
Por outro lado, o poeta Propércio, contemporâneo de Virgílio, descreve a Eneida de Virgílio nos seguintes termos:
nescioquid maius nāscitur Īliade
“Eis que está surgindo algo, digamos, maior que a Ilíada ...”
Os romanos agora percebiam que sua cultura poderia pôr-se em comparação com a melhor outrora produzida pelos gregos. A veneração pelos gregos contrasta de grande modo, por exemplo, nos constantes ataques do poeta satírico romano Juvenal ao Graeculus ēsuriēns (“gregozinho faminto”), que refletia o desprezo aristocrático aos gregos modernos como a descendentes decadentes de um povo outrora glorioso. Entretanto, em todos os períodos, personalidades gregas eram tidas em grande estima em Roma (por exemplo, Políbio, Posidônio, Partênio, Filodemo). E, ao fim do primeiro século, Roma havia se tornado o núcleo cultural do mundo aos olhos não apenas dos romanos mas também dos gregos, cujos poetas, professores e filósofos agora para lá migravam. É parte da grandeza de Roma que, quando confrontada com a cultura grega, ela nem se subjugou de todo nem a atropelou esmagadoramente, mas aceitou o desafio, empreendeu-o tomando-a, transformando-a e transmitindo-a para a Europa. Sem a mediação de Roma, a cultura nos recantos mais remotos do antigo Império seria algo muito diferente do que foi e, compreensivelmente, muito menos rica.
Aqui, Cícero, um dos escritores mais influentes de Roma, lembra a seu irmão, Quinto (que foi governador na Ásia Menor, uma província romana amplamente povoada por gregos), simplesmente de quem ele tem sobre si responsabilidade, e a dívida que Roma tem para com essa gente:
“Nós estamos governando uma raça civilizada, de fato, a raça da qual se acredita que a civilização foi passada para outros e, seguramente, nós devemos dar os benefícios da civilização acima de tudo àqueles de quem nós a recebemos. Sim, não me envergonho de dizer isso, especialmente à medida em que a minha vida e história não deixam abertura para qualquer suspeita de indolência ou frivolidade: tudo o que eu obtive, eu o devo às descobertas e disciplinas que nos foram passadas pela mão da literatura e dos ensinos da Grécia. Assim sendo, nós podemos muito bem ser considerados como quem tem um dever especial para com esse povo, além e acima da nossa obrigação comum para com a humanidade; escolados por seus preceitos, nós devemos desejar demonstrar o que nós aprendemos, diante dos olhos daqueles que nos ensinaram.”
(Cícero, Ad Quīntum 1.1, traduzido da versão em inglês oferecida na introdução do Reading Latin)
quinta-feira, 1 de julho de 2010
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